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da Culinária Caiçara
Definir o melhor lugar para se comer, fora de casa, depende
muito do espírito de quem sai. Matar a fome depois da praia, sem a canseira do fogão e da louça
suja, pede um local descontraído, arejado, onde se vai até sem camisa. Levar a família, à noite,
para um passeio arrumadinho, quase exige aquela pizza. Se a idéia é um programa a dois, encontra-se
um local discreto, aconchegante, escondido numa praia ou rua transversal. Quem prefere um
hambúrguer, ou petiscos para acompanhar a cerveja, fica com quiosques, bares e lanchonetes. Para
todos os casos, há boas opções no Litoral Norte. Confira em cada cidade.
Dentro de casa, ou fora dela, uma série de fatores tornam o Litoral Norte privilegiado em matéria
de comer bem. Há peixes variados, agricultura quase doméstica a garantir farinha saborosa, imenso
rebanho bovino em Caraguatatuba e cidades da serra, como Paraibuna e São Luiz do Paraitinga. Roças
de feijão, verduras frescas de chácaras por toda a parte.
Saúde e sabor à vontade.
Hospitalidade Ancestral
Caiçaras e viajantes do Litoral Norte levavam sua própria comida nas longas viagens a pé ou de
canoa, quando a região ainda não contava com os espetaculares restaurantes de hoje. Eram recebidos
com café, banana e muito carinho.
Todos se conheciam, de Bertioga a Paraty. Nas viagens de canoa, antes das estradas e do turismo,
alguém era sempre o filho da dona fulana, o primo do seu sicrano. No mundo pequeno das viagens pelo
Litoral Norte antigo, honravam-se os preceitos ancestrais da hospitalidade, transmitidos de geração
em geração até desembocar no atendimento cordial da atualidade, profissionalização em hotéis,
pousadas e campings.
Como o caiçara preferia não dar muito trabalho, levava comida. Sem geladeira, usava o sal como
principal conservante do peixe, item básico da alimentação, ao lado da banana e da farinha de
mandioca ou milho. Sua cozinha misturava hábitos portugueses e indígenas, com pouca ou nenhuma
influência inicial dos negros. Com o início da plantação de cana, vieram a pinga e os escravos,
com suas receitas africanas. Paraty, aliás, virou sinônimo de cachaça.
"Na festa da princesa Isabel, foi o conde d'Eu quem disse: farinha de Suruí, pinga de Paraty,
fumo de Baependí, é comê, bebê, pitá e caí", escreveu o poeta Oswaldo de Andrade.
Comida de Branco
Nos tempos do descobrimento, os índios provaram a comida de branco. Não gostaram. Segundo Pero
Vaz de Caminha, dois tupis foram levados à nau capitânia, e recebidos pelo próprio Pedro Álvares
Cabral. Provaram peixe cozido, confeito, fartéis (um doce delicado, envolvido em capa de massa de
trigo), mel e figos secos. Não comeram quase nada. Quando provavam algo, logo cuspiam enojados. Nem
o vinho apreciaram.
Em compensação, os portugueses gostaram dos camarões, que já conheciam, mas não tão grandes. Os
hábitos mudaram muito, com a integração da região pelas estradas, porém se conservam nas
comunidades mais isoladas.
A mudança de costumes eliminou também a tanajura ou içá, iguaria elogiada no tempo dos nossos
avós, hoje desprezada. Monteiro Lobato brincava: "O içá torrado é o que no Olimpo grego
tinha o nome de ambrosia".
Pratos tradicionais podem ser apreciados nas casas de famílias antigas, e nos bons restaurantes
caiçaras. Peixe com banana, no famoso azul-marinho; camarões à paulistinha, caldeiradas e afogados
fazem a alegria de todos. Doces de banana, sorvetes sofisticados, não falta variedade na rica
culinária do litoral, nem sabores exóticos dos restaurantes internacionais que pontilham as praias
e centros.
Cultivo de Marisco
O filão dos moluscos engloba caramujos, ostras, mariscos ou mexilhões, e até lulas e polvos,
embora os dois últimos não façam concha. Em Ubatuba, graças ao Instituto de Pesca, recuperou-se o
mexilhão, que vive grudado nas pedras. Baseando sua pesquisa nos criadouros espanhóis da Galícia,
biólogos desenvolveram uma tecnologia viável. Existem hoje produtores em praias como Pulso, Enseada
e Ubatumirim.
A coleta das sementes se faz com estrados colocados na água. O aumento via cultivo recuperou bancos
naturais. Hoje já se constata o crescimento das populações, repondo o mexilhão no cardápio
local, recuperando a tradição de consumo deste alimento saudável e saboroso.
Nos bons restaurantes, ou em quiosques à beira-mar, o marisco é servido na casca, à vinagrete ou
em sopas e massas, sendo sempre uma boa pedida, acompanhado da inevitável cervejinha bem gelada.
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