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-
Truco!
- Toma seis, que trêis é poco.
- Ganhe, mardito!
Esse jogo, cada vez mais animado, era cena comum todas as
noites no botequim do Moreno, na esquina do Largo da Campina,
naquele tempo bastante diferente da topografia de hoje Praça
13 de Maio.
Bernardino de Campos - Dinico,
como todos o conheciam - era infalível. Podemos dizer até
que as "sessões" eram abertas por ele e por ele
encerradas. Rapaz de costumes e vícios abomináveis, causava
ao mesmo tempo compaixão e repulsa.
- É sorte - diziam alguns,
vendo o belo rapaz, nos seus vinte anos primaveris caminhar
sinuosamente sob efeitos do álcool, pelas ruas da cidade.
- Miserável! - bradavam outros -, quando suas nefandas
aventuras eram propaladas, deixando com os interlocutores a
nauseante repugnância que tais fatos lhes causavam.
Conselhos, mesmo os lacrimosos
de seus velhos pais, não o demoviam do seu propósito, e se a
polícia o conduzia, assegurando a tranqüilidade pública, o
cínico rapaz repetia aos conhecidos que ia encontrando na
rua:
- Tão vendo? Prá hoje arranjei cama e comida! A cadeia não
foi feita prá cachorro...
Seus pais viviam na mais
profunda miséria, numa casinha em ruínas, lá para os lados
da Jundiaquara, não se conhecendo ao certo o lugar preciso
dessa habitação. José, o filho mais velho, empregando-se em
Santos, era o protetor daquele lar infeliz. Emília, a menina
que tanta cobiça despertara aos rapazes daquele tempo, casou-
se com o Neguinho Alves e foi morar no sertão do
Perequê-açu. Dinico era o último filho. Ficou para
martirizar impiedosamente aquele casal de velhinhos.
O velho Crispim piorava dia a
dia. A velhice, as necessidades, as agruras provindas do
procedimento do filho arrastavam-no a largos passos para a
sepultura. Ao anoitecer de um sábado, Maria Rosa, percebendo
o estado agonizante de seu companheiro, chamou carinhosamente
o filho:
- Dinico, teu pai vai morrer!
Leva estas últimas moedas, procura um remédio que o conforte
no seu último momento e traze uma vela para, depois,
acende-la junto ao seu cadáver. Vai, meu filho... É para teu
pai!
E a pobre velhinha afogou-se
num turbilhão de lágrimas. Dinico arrebatou as moedas e saiu
com um sorriso sarcástico nos lábios. Quem sabia os
pensamentos que lhe assaltavam o cérebro?
Adivinham-se logo.
Ao entrar na cidade
encontrou-se com o Chico Bento e o Manduquinha, que o
convidaram para uma "trucada".
- Vamos. Eu sempre sô companheiro, respondeu.
Lançou para longe a lembrança da enfermidade do pai, com a
mesma naturalidade com que atirou a um lado a ponta de cigarro
que trazia presa aos lábios, e caminhou para o antro do
Moreno, a fim de jogar as moedas recebidas de sua mãe.
Alta noite, alguém ali chegando, não pôde conter a
exclamação:
- Dinico! Teu pai morreu...
- Meu pai? Ora... Truco! Morreu? Morrê por morrê, morra ele
que é mais velho... Estas palavras, embora proferidas num
antro de degenerados, causaram sensível constrangimento e
profundo silêncio pairou sobre o ambiente.
Dinico espantou-se, e rompeu o silêncio:
- Não qué? Truco outra veis!
Pareceu, então, que a irreverência do desalmado agiu como
surdo furacão dissipando a nuvem tétrica, pesada, que havia
pairado no ambiente envolvido pelo fantasma da morte. O
barulho recomeçou. Mais álcool, mais miséria...
No dia seguinte, quando
voltava para casa, vociferando, cambaleando, encontrou a rede
que transportava os despojos do autor de seus dias. E chegando
à casa, não encontrando com que saciar a fome corrosiva que
trazia no estômago, espancou a velha mãe em inominável
atitude de violência e crueldade. Mas é forçoso relatar que
assim procedia, sempre que a velha Maria Rosa recebia dinheiro
do bom filho José e negava-se a entregá-lo ao miserável,
com os olhos fitos na sua regeneração.
Aí, o braço forte do filho
algoz caía, impiedoso, sobre a mártir e indefesa mãe. Esta
não demorou em tombar no mesmo leito em que expirara o velho
Crispim, ali gemendo abandonada, paralítica, recebendo apenas
o espaçado conforto de um ou outro vizinho compassivo, porque
Dinico continuava na mesma vida desregrada.
Quadro horrível! Uma noite
entrou inopinadamente pelo casebre a figura horripilante do
ébrio inveterado. Maria Rosa, coitada, quase em agonia,
implorou:
- Filho das minhas entranhas... Eu morro... Mas, antes, quero
ver-te no bom caminho... Eu morro, filho! Tenho sede! Dá-me
um pouco de água...
- Tens sede? Por que não morres? Toma, mata tua sede.
E assim dizendo passou rapidamente o pé, no braseiro que
crepitava a um canto, lançando brasas sobre a velha
moribunda. Depois, caminhou apressadamente para a porta, mas
uma força estranha tolheu-lhe os passos, parece que para
fazê-lo ouvir sua mãe dizer:
- Miserável! Vai! A minha maldição te perseguirá sempre!
Não terás sossego em tua vida nem paz depois de morto!
Bandido! A própria terra te rejeitará... Vai!
Dinico espumou numa risada de ódio e de sarcasmo. Como um
touro bravio abandonou aquela casa onde nunca mais voltou.
Morrendo-lhe a mãe, a
maldição desta não se fez esperar.
O rapaz viu-se na miséria, abandonado, sem amigos, sem uma
palavra de consolação. Tudo o rejeitava. Dizem que as
árvores negavam-lhe sombra, deixando atravessar entre as
ramagens os raios escaldantes do sol. As fontes ferviam se o
desgraçado ia beber.
Suicidou-se. Encontraram-no
enforcado no ramo de uma árvore, pendente sobre o Rio Lagoa,
conhecido por Barra da Lagoa. Tratou-se do seu enterro entre
os diversos comentários da população, mas o fato começou a
ser mal encarado, quando, no dia seguinte ao do sepultamento,
o coveiro deparou com o cadáver de Dinico sobre a sepultura.
Assombrado com esse fato inédito, tratou de enterrá-lo
novamente, mas de novo o cadáver emergiu à flor da terra.
Alguns parentes do morto, alta
noite, transportaram aquele corpo mumificado para a costeira
do Caruçumirim (Prainha), lá para os "lados de
fora", mas, desde então começou o tormento dos
pescadores. Nas horas caladas, gritos medonhos partiam da
costeira. O praguejado rogava a sua mudança daquele sítio,
pedia que o levassem para a Barra da Lagoa, talvez porque
tivesse morrido lá.
Contavam, depois, que certa
noite espectros macabros foram vistos transportando dali um
vulto qualquer, mal divisado à luz funérea de ossadas
fosforescentes. O fato é que na costeira da Prainha não mais
se ouviram os lancinantes gritos do fantasma.
Véspera de Natal. Dezenas de
presépios estavam sendo armados por toda a vila. Um vaivém
de pessoas preocupadas nesse mister via-se nos arredores da
vila, colhendo liquens e parasitas para o adorno natural da
cena de Belém. Chiquinha Bastos e Clarita Pinto, duas moças
peritas no assunto, foram explorar as margens do Rio Lagoa.
Juntavam-se aqui, distanciavam-se ali, quando Chiquinha
encontrou um cepo disforme, coberto de belíssimas parasitas.
Sofregamente pôs-se a catar aquelas preciosidades, para
apresentar melhor colheita que a amiga. Depois de limpá-lo
todo, passou-lhe um olhar de observação e, maquinalmente, a
meia voz, falou:
- Pronto, acabou...
Já se retirava, quando ouviu uma voz dizer:
- Moça, aqui tem mais.
Voltou-se. Soltou um grito
agudo e caiu sem sentidos. O cepo que há pouco lhe fornecera
delicadas plantas, mudava de posição, deixando transparecer
perfeitamente as formas de um corpo humano, ressequido e
corroído pela ação do tempo.
Dizem que até hoje ali está
o corpo do degenerado que a terra não quis receber, atendendo
aos rogos da velha Maria Rosa.
Extraído do
livro "Ubatuba - Lendas & Outras Estórias"
de Washington de Oliveira
("seo" Filhinho)
conforme autorização do autor |