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78 Rotações
Sempre ouvimos palavras utilizando um radical mais um sufixo, no
caso diminutivo, de forma a justificar a "coisa" ou
pessoa referida. A justificativa utilizando a pequenez, quando
não com significado carinhoso, tem embutida, alguma desculpa
para que o ouvinte concorde com seu interlocutor, ou mesmo que
aceite a justificativa da forma ou da razão de ser da tal
"coisa" ou pessoa.
Exagerando : " ... Sabe Zezinho, estava precisando dar uma
"pinturinha" no "puxadinho" daquela minha
"casinha", que fica lá no fundo daquela
"ruazinha", quase em frente aquele
"predinho" daquele "advogadozinho" que vive
implicando com o barulho do "barzinho" do Toninho.
Explicação maçante, mas tudo isso, para falar um pouco dos
"...INHOS" e das "INHAS". Assim, partimos
para a IDENTIFICAÇÃO de uma infinidade delas (coisas e
pessoas).
Predinho : Um prédio pequeno, nem sempre com planta aprovada,
sem arquitetura, mal ajambrado, mais parecendo, para quem vê de
longe, uma caixa de sapatos com furos.
Puxadinho : telhado mal escorado, mal coberto, ou um apêndice
(supurado), de uma construção principal, de segunda categoria,
geralmente idealizado por pessoa de péssimo gosto estético.
Ruazinha: acesso criado, geralmente clandestino, em que,
passando o tempo, até a prefeitura esquece e abandona. As
ruazinhas podem ser encontradas, aos montes, no centro, e em
qualquer uma das, praias – bairros, de nossa cidade.
Carrinhos. Longe de serem carros pequenos, são carrinhos que
manipulam alimentos e transportam salmonelas ( aquele vírus que
ataca o aparelho digestivo, provocando azia, queimações e
sangramentos intestinais) longe, bem longe dos olhos da
vigilância sanitária.
Barraquinha: não é uma barraca, muito menos um barracão é
só uma inofensiva barraquinha, muito embora, por ela passe
volumes astronômicos de mercadorias, sem cupom fiscal, de
vários atacadistas da 25.
Um minutinho: aqueles minutos intermináveis nas salas de espera
dos médicos, dentistas, ou nas filas das repartições
públicas ou dos bancos.
Só um pouquinho: porção generosa ingerida aos poucos,
geralmente por pessoas demasiadamente obesas. A idéia de
pequenez pode ser transmitida com sentido afetivo, pejorativo,
de falsa modéstia ou de desculpa para quem poderia ou deveria
fazer a coisa certa, ou pelo menos melhor.
Assim, por exemplo, viemos criando e “construindo” grande
parte de nossa desestrutura turística. Devagarzinho
apareceram... uns (centenas deles) apartamentinhos, ...coisa
simples, ...só para alugar na temporada, concorrem com pousadas
e hotéis. Experimentem a dificuldade hoje, de aprovar nos
órgãos oficiais, um hotel ou um predinho. Agora, com a
novidade, mais uns 4 andarzinhos, em cima daqueles outros
quatrinhos, para só mais uns apertamentinhos de um
dormitóriozinho, para instalar só umas familiazinhas na
temporada, para ganhar uns dinheirinhos.
Dá pra fazer esse favorzinho? Continuemos. Com um “banho
Maria” mais enfeitado e um fogão tocado com a barriga (na
garagem) serve-se uns pratinhos. Um forninho pré fabricado nos
fundos, e meia dúzia de mesas, umas pizzazinhas. Uma bancada
gelada e um freezer, uns sorvetinhos. Uma barraquinha (de lona
plástica) na beira da estrada, bar e lanches. Uma ruazinha,
acaba com um aeroportozinho. Um caninho, vira um montão de
esgoto na sarjeta das ruas da cidade. Umas lixeirazinhas, levam
pro riozinho um mar de xorume. Uns barraquinhos, viram uma
favela. Outro dia li no jornal concorrente, uma matéria muito
boa, que lembrava, entre outras, das atividades da secretaria do
planejamento. Para uma cidade, entre as que mais crescem no
país, e ainda por cima, recebe 1.000.000 de visitantes, deveria
ser a secretaria mais importante e a mais ouvida do município.
Afinal, como resolver tantos problemazinhos, que tem se
acumulado, sem um mínimo de planejamento? Está havendo algum
planejamento e só eu não tenho notícia? Ou, o que foi
planejando nos últimos anos, está tão atrasado, que não
serve para amanhã? Ou o planejamento tem sido uma
secretariazinha só pra constar? Estamos em um “novo”
início. Vamos esperar mais um pouco. Ubatuba esta esperando.
Há apenas 364 anos! Ta certo!
Olhem, às vezes, me sinto um discozinho daqueles de 78
rotações, que de tanto tocar, encalha na mesma música. Mesmo
assim, vou insistir, afinal tem tanta coisa que incomoda e tanta
gente que suporta. Quem sabe, de tanto tocar o mesmo trecho da
música, alguém ouça e tome alguma atitude? Só uminha. Quem
sabe também, comecem pela demolição das lixeiras, coisas
escrotas, poluidoras, que só se vê aqui em Ubatuba e nos
filmes que se passam na IDADE MÉDIA, aquela da PESTE NEGRA, que
os esgotos corriam pelas ruas e as pessoas faziam suas
necessidades fisiológicas onde estivessem. Fedorentas, imundas,
as lixeiras são verdadeiros depósitos das mais variadas e
diversas doenças transmissíveis. De onde será que importaram
a idéia dessas lixeiras? De alguma cidade do interior da
Índia? Viram em MIAMI?
Mas..., deixa estar, esperemos mais um pouquinho. A hora que a
Secretaria da Vigilância Sanitária saber que existem essas
tais lixeiras... Enquanto isso, vamos indo. Muito devagar no que
precisa. Se for assim, um passinho de cada vez, a cada atitude
efetiva, vou mudando de faixa. Até acabar o disco. Pronto! Se
ficar como estava, passinho pra frente, passinho pra trás, o
jeito é aumentar o volume. Quem sabe alguém me empresta o trio
elétrico grandão do tal carnaval, para eu tocar, bem alto, meu
velho e desgastado disco por aí; e resolver, de tanto tocar,
esses probleminhas. Aí, troco meu velho disco, pelo tal do CD!
Ubatuba, 08/02/2001
Ronaldo Dias
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