|
Esta semana, com a permissão
do meu Amigo Renato, publico aqui, ao meu ver, sua crônica mais
admirável. Seu fundo verídico nos leva a reflexões. Devemos
com certeza, uma justa homenagem à estes bravos Caciques.
Divulgar este triste fato histórico em que milhares de silvículas
foram dizimados, traidos por uma crença que lhes foi imposta,
é muito pouco, mas, já é um começo.
"...como pois contra nós, em guerra assídua, sem medo
de seu Deus, cruéis se mostram?"... indagações do
cacique Aymberê ao pe. Anchieta.
A Maldição de Cunhambebe
"Ubatuba é uma cidade que tem muita iniciativa e pouca
continuativa", dizia um velho caiçara para as pessoas que
lá chegavam, no começo dos anos 70 em busca de um novo local
para trabalho e morada.
Com o passar do tempo se percebe que o velho tinha razão. Não
só as iniciativas humanas, mas também a natureza se comporta
aqui de maneira estranha, deixando muitas vezes as coisas pela
metade. O exemplo mais fácil de encontrar são as mangueiras.
Alguém já viu mangas nas mangueiras de Ubatuba? As mangueiras
são comuns no litoral. Em Paraty estão carregadas na época
certa, em Caraguá e em São Sebastião também. Em Ubatuba não.
As mangueiras perdem as flores antes da hora. É claro existe
uma ou outra mangueira de vez em quando, sem muita regularidade,
dá algumas poucas mangas, mas isso são as exceções, para não
fugir da regra de que toda regra tem exceções. Os governos
começam as coisas e não terminam, os planos param pela metade,
o comércio começa bem, logo depois não dá certo. As pessoas
que chegam cheias de entusiasmo e idéias novas desistem e a
maioria vai embora. É só prestar um pouco de atenção que os
exemplos se multiplicam. Mas tudo tem uma explicação, e a
explicação para o nosso caso é a maldição lançada sobre a
Aldeia de Yperoig, hoje Ubatuba, pelo valente cacique Cunhambebe
no ano de 1563.
Logo após a descoberta do Brasil em 1500, os portugueses
tiveram que dominar e garantir a posse das terras contra vários
reinos europeus que naquele tempo se expandiam descobrindo novas
terras ou simplesmente tomando a terra dos outros à força,
fazendo depois acordos com a coroa para acomodar a convivência
entre eles na Europa. Nessa época, na posse, no domínio e nos
acordos valia a lei do mais forte.
Os holandeses e os franceses eram os mais terríveis
interessados em tomar dos portugueses as terras descobertas. Os
espanhóis que também foram grandes conquistadores lutavam para
manter o outro lado do vasto continente. Para dominar a zona
costeira e explorar o interior das terras descobertas, os
portugueses usavam os índios como escravos no trabalho e nas
lutas, capturados à força e muita brutalidade. E é aí que
entra a história de Cunhambebe.
Os índios eram pacíficos, não conheciam nada dos brancos,
só conheciam a natureza que lhes dava tudo de comer e de curar
alguma doença do mato, ferimentos ou comida mal digerida. Seus
deuses eram as forças da natureza. Não tinham armas de fogo
nem facas e facões porque não conheciam o metal, nem prisões.
Os portugueses, para usar seu trabalho escravo, impunham grande
pavor, matando, esfaqueando e prendendo com correntes de ferro
os desobedientes.
Cansados de tanto sofrimento os índios começaram a se
revoltar atacando os invasores em suas aldeias, porém, poupando
as mulheres e crianças que para eles são criaturas sagradas.
Diferente dos portugueses que quando atacavam arrasavam tudo
matando quem estivesse pela frente. Caciques de diversas tribos,
liderados por Cunhambebe, (Koniam-bebê) homem de dois metros de
altura cujo nome vem de sua gagueira e fala arrastada,
resolveram pôr um fim a tantas injustiças e combinaram um
grande ataque para expulsar de vez aqueles homens brancos muito
maus.
Comandados por Cunhambebe e pelos caciques Aymberê, Caoquira
e Pindobossú os índios eram muito numerosos. Os registros do
Padre José de Anchieta indicam a chegada de mais de duzentas
canoas com mais de vinte índios cada uma, além dos milhares
que vinham por terra, provenientes das tribos situadas nas planícies
acima da Serra do Mar. Se a batalha tivesse acontecido os
portugueses seriam arrasados e expulsos do litoral de São
Paulo, e os franceses, que dominavam o Rio de Janeiro e que se
relacionavam muito bem com os índios daquela região, teriam
tomado a terra brasileira das mãos da Coroa Portuguesa. A história
seria outra. Mas a batalha não aconteceu.
Os portugueses auxiliados pelos jesuítas que tinham grande
poder sobre a bondade na terra e suas recompensas na eternidade
conseguiram aplacar a ira dos chefes morubixabas com promessas
de castigos divinos e muitas ameaças do furor das forças da
natureza, que era a única coisa real que orientava as ações e
os pensamentos daqueles homens primitivos em seu estado natural
mais puro.
É verdade que alguns índios duvidavam daquelas palavras,
mas seu temor era tanto que não ficaram senão algumas memórias
dessas dúvidas. Existe o registro de uma reclamação do
cacique Aymberê que foi tema de uns versos escritos sobre
aqueles tempos, que revela bem as dificuldades dos índios com
as coisas que lhes eram ditas pelos padres. Diz um trecho do
poema encontrado em velhos arquivos baseado nas indagações de
Aymberê ao padre José de Anchieta:
"Não conhecem acaso os portugueses".
Essa pia doutrina que nos pregas?
Como, pois contra nós, em guerra assídua,
Sem medo de seu Deus, cruéis se mostraram?
Ou, só porque de deus ao filho adoram,
Lhes foi dado o poder de perseguir-nos?
Mas se do céu as leis desobedecem
Que deus é esse então que os deixa impunes,
E vem por tua boca ameaçar-nos?
Os índios recolheram seus arcos, flechas e bordunas em atenção
às promessas de paz e convivência com os brancos garantidas
pelos jesuítas. Depois de uma viagem do cacique Cunhambebe a São
Vicente junto com o padre Manoel da Nóbrega para acerto dos
acordos de fim das hostilidades, foi combinada a Paz de Yperoig,
que serviu de argumento para o desânimo dos franceses que
queriam ver os portugueses expulsos. Cunhambebe e seus
guerreiros acreditaram na boa fé dos acordos. Os vários chefes
com seus homens se dispersaram, se desarmaram e voltaram para
suas tribos, e até hoje se comemora a paz de Yperoig como uma
data importante que garantiu a unidade do Brasil contra as ameaças
de divisão, graças ao trabalho de catequese e união promovido
por Anchieta, Nóbrega e seus companheiros. Mas a história não
comenta que logo depois de terem se desarmado e se dispersado os
índios foram massacrados pelos rudes e estúpidos colonizadores
portugueses interessados no ouro, nas riquezas e nas terras
descobertas.
Cunhambebe morreu doente, ferido no corpo e na alma,
envergonhado diante da humilhação a que levou seu povo por ter
acreditado na palavra dos brancos. Sabendo da importância que
os portugueses deram àquela data, pouco antes de morrer o
grande cacique lançou uma maldição contra os invasores e seus
descendentes dizendo que as terras de Yperoig que eles tanto
quiseram seriam as terras do fracasso, que lá nada daria certo,
tudo que se começasse não chegaria ao fim. Grande entusiasmo
no início e resultado miserável no final. E assim tem sido a
história de Ubatuba, seus ciclos econômicos sempre
interrompidos, seus negócios e empreendimentos sempre
fracassados. Já quiseram fazer porto de turismo, indústrias do
pescado, faculdades, nada dará certo por lá enquanto se
comemorar a Paz de Yperoig como homenagem ao trabalho dos jesuítas,
esquecendo-se de que ela só foi possível porque enganaram a
boa fé daqueles homens primitivos e os traíram matando seus
chefes e humilhando seu povo, os verdadeiros donos da terra
brasileira.
Mas a maldição dos índios não é eterna, seu desejo não
é vingança e sim serem tratados com dignidade e respeito. Para
acabar com os efeitos da Maldição de Cunhambebe basta parar de
comemorar a Paz de Yperoig da forma como ela é comemorada, que
ignora o papel e a traição cometida contra os índios. Para
isso a Câmara Municipal de Ubatuba deveria aprovar uma lei
extinguindo o dia da Paz de Yperoig criando em seu lugar o dia
de Cunhambebe e dos Índios do Litoral Norte. A paz que uniu o
Brasil deveria ser atribuída ao martírio dos índios, da mesma
forma que a independência do Brasil é atribuída ao martírio
de Tiradentes. Para manter viva a homenagem, estátuas de
Cunhambebe, Aymberê, Coaquira e Pindobussú deveriam ser
erguidas nos principais pontos da cidade. Aí a nossa história
será outra, podem crer...
Crônica de Renato Nunes
Ubatuba, 11/11/2001
Ronaldo Dias
|