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Auto Estima
Não houve grandes surpresas na nomeação dos assessores do
novo prefeito. De todos os discursos que ouvi, pincei uma frase
bastante significativa. A recuperação da auto estima da
cidade. Trabalho árduo, mas imprescindível. Difícil. Muito
difícil. Envolve, na verdade, uma reorganização
sócio-econômica total do município.
Não gostei das propostas das identidades visuais para a
administração, a tal “canoa”. Muito menos da frase “você
esteve no paraíso” para “lembrar” aos nossos visitantes
nossos predicados. Não podemos vender (por enquanto) o que não
temos para entregar. Os problemas do nosso paraíso são
complexos, não podem e não devem ser tratados com metodologia
simplória.
Uma cidade que foi induzida politicamente à exploração
imobiliária, portando privilegiando o veraneio, voltar para o
turismo é complexo. Esta atividade, ocupou as melhores áreas
disponíveis com predinhos de um dormitório, a maioria de
aluguel temporário. As praias, mais freqüentadas, foram
loteadas para barracas e invadidas por centenas de carrinhos de
ambulantes para desconforto e incomodo aos usuários. Não há
ordem, critérios, muito menos fiscalização.
O mesmo acontece nas zonas centrais da cidade, e principalmente
na famosa e conhecida Av Iperoyg, onde a paisagem foi
completamente deturpada por esta atividade (comércio ambulante)
onde ela não respeita nem mesmo o marco histórico do Cruzeiro.
Tomadores de conta de carros, lotearam entre si, as ruas.
Mendigos e pedintes ( aqui despejados por municípios vizinhos)
disputam, com violência, em plena calçada, com os catadores de
latinhas, as sobras das mesas dos restaurantes.
Ambos, mais os visitantes da noite, urinam e defecam com
espontânea naturalidade pelos jardins e muros da cidade.
Aliás, ela já fede. As discotecas sobre rodas, movidas a
drogas e muito álcool ao volante, sonorizam a milhões de
decibéis o meio ambiente. Até mesmo em frente da Santa Casa.
Bares noturnos e flipers disputam os trocados dos menores em
atividades de maiores. Inclusive prostituição. As bicicletas
indisciplinadas, valentes, mal educadas e sem mão de direção,
tomaram conta das ruas, das calçadas e calçadões. Para não
falar nas quermesses, tipo barraquinhas, de pau cobertas de lona
plástica, que infestam mensalmente o calendário anual de “eventos”
er fazem (junto com os demais ambulantes) tabula rasa às regras
da vigilância sanitária para a manipulação de alimentos.
Nas praias, os canos de esgotos da SABESB, vazam na Enseada, por
conta da tal bomba de recalque, que funciona apenas quando o
funcionário liga. Quem liga? Como se não bastasse, ruas e
casas abandonadas desertificaram a EX – badalada Enseada. Quem
se lembra? Na mesma rota, o Lázaro, as Toninhas, o Perequê-
Mirim até mesmo, vejam vocês, a Praia Da Almada. Em todas,
ruelas estreitas, invadidas, vão descaracterizando a paisagem e
a passagem. Em todas, o hábito de lixeiras coletivas, impunes,
comprometem perigosamente a saúde publica.
Responda quem souber: Quais praias os hotéis do centro podem, e
devem indicar para seus hóspedes? Em quais encontrarão o que
vieram buscar? E os hotéis destas praias? Seus acessos e suas
placas indicativas? E as nossas estradas? Esburacadas, cheias de
lombadas ( com buracos também) abandonadas, sem acostamentos,
terceiras faixas, são, quando muito, um caminho.
Assim, justifico o meu desagrado com o lançamento do “você
esteve no paraíso”. Temos muito ainda pela frente. Como
desenvolver a nossa vocação dentro deste quadro, sem recuperar
a auto estima da cidade? Quanta legislação a ser modificada.
Quanta imposição de vontade política. Quanta imposição de
autoridade. Recuperar a auto estima da cidade, vai dar um
trabalhão! Vai desagradar alguns, mas irá beneficiar a todos.
Que Ele ilumine o novo prefeito, e lhe dê toda a coragem e as
condições necessárias para executar este trabalho hercúleo.
Já imaginaram quando não teremos mais que explicar a quem nos
visita o porque a cidade e as praias ficaram como estão? Vai
ser gratificante.
Paulinho, nós todos vamos ficar lhe devendo essa.
Ubatuba, 22/12/2000
Ronaldo Dias
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