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Ronaldo Dias

A vaca e os carrapatos

Certa feita, em uma das minhas viagens ao Mato Grosso, conheci uma pequena, jovem (15 anos) e organizada cidade, que como naquela da novela, não conseguiu ainda, inaugurar a cadeia. Nova Mutum. Quem teve a oportunidade de assistir na Globo, pode avaliar a qualidade de vida dos moradores deste pontinho preto, de 15.000 habitantes, limpo e organizado, perdido (sorte deles, moradores) no mapa do centro oeste do Brasil.

Lá, fiz muitos e bons amigos. Um deles, tem orgulho de ser um dos fundadores da cidade, afinal, está lá há 28 anos, é o Seo Vicente. Nascido em fazendas no sul do país, foi para aquele lugar, “aventurar”, como conta, e ficou! Profundo conhecedor de gado, sabe, só de olhar, a idade e peso exatos de qualquer desses animais. Raças? Conhece todas! E a mestiçagem também! Seu conhecimento é tanto que é procurado para avaliar qualquer compra ou venda de “ boiadas e vacadas” de maior vulto. Essa, acabou sendo sua profissão. Uma vez, me convidou para ir com ele até uma fazenda próxima, avaliar uma “nuvilha” nelore PO! PO??? “É Ronaldo, PO! Pura de Origem rapaz! ” disse ele. Até então para mim, definir apenas o sexo daqueles animais, só dando aquela “abaixadela”; imagine, definir raça, mestiçagem, peso, idade e agora, PO! E lá fomos nós.

A tal fazenda, próxima, ficava a 230K por uma estrada de terra esburacada, cheia de pinguelas e ramificações à direita e à esquerda, que com a repetição da paisagem, confundiria até mesmo um GPS. Depois de exatas 5 horas de viagem chegamos! Ufá! Como sempre, a recepção tem aquele estilo peculiar: Água fresca e café fraco.

Depois dos cumprimentos característicos e dados às notícias da cidade de fulano e beltrano, entraram no assunto! A “nuvilha”. Pois é, seo Zé, disse o Vivente: “eu tava passando e resolvi dar uma olhada na bezerra!” Passando??? Pensei! Coisa do seo Vicente. E lá fomos nós em direção ao curral! O Calor, estava insuportável. Sentei no Bret e fiquei , meio de longe, para não atrapalhar a conversa de negócio dos dois.

Não deu 5 minutos e seo Vicente me chamou! Olha aí Paulista, é essa que eu vim buscar! Rapidamente, abriu a porta da gaiola da caminhonete e colocou o animal pra dentro! Não entendi nada! Tantos quilômetros para comprar aquele animal??? Aquilo era um PO??? A aparência da pobre coitada, era horrível! Magra, esquelética, fedida, cheia de feridas, moscas e pontinhos pretos. As moscas, eram tantas, e famintas, que pareciam querer sugar o que restava daquela pobre carcaça. Fiquei calado, com medo de entrar no assunto e tirar aquele sorriso de satisfação de ter feito um bom negócio, do rosto alegre do seo Vicente.

Não durou 3 pinguelas e parou! “Vamos refrescar no riacho” Sem botas e pés dentro d´água, pros lambaris “ beliscarem” soltou um sorriso satisfeito : “Olha lá Paulista, que beleza de animal!” Beleza? Mas e os cascos, e as feridas, os carrapatos, as moscas? Onde está a beleza, velho? Eu não comprava essa vaca, nem pra açougue! Ele, se riu todo!!! “ O ce não entende nada de animal”. O sol sumindo nas copas das arvores e o ar fresco que começou a soprar, sinal de alguma chuva pesada que caiu pela redondeza, nos animou levantar. Fomos embora, escondidos atrás do volume do radio, cantarolando desafinados, umas modas antigas do programa sertanejo. Duas semanas depois, na véspera de eu voltar, seo Vicente me convidou para um churrasco na fazenda dele.

Que beleza! A fazenda era pequena para a região, mas tão bonita e tão bem cuidada, coisa mesmo de fazer inveja a qualquer COW-BOY de cinema. Uma “belezura” como ele diz! – “Paulista, aquela ali, apontando para o curral, é a dita que você foi comigo buscar” Não acreditei! O animal havia se transformado - Vicente, o ce da de brincadeira, homem! (arrisquei na linguagem local) - Não paulista, é ela mesma. Mas o que “o ce feis” no bicho, Vicente? Já sei, : trocou o couro e injetou ar! Ele riu! “Oia aqui Paulista, aquela aparência, era só falta de cuidados do Zé! Esse pessoal da roça é assim mesmo! Relaxado. Não ligam. Não sabe o que tem nas mãos! Vou ganhar uma nota preta, como você diz, com ela no leilão do mês que vem! - Vicente, mas o que você fez na verdade? Me explica? - Não muito paulista! A bicha é PO, tem raça no sangue! O resto, foi cocho, vacina, banho e tratar dos bernes e carrapatos!

Realmente era inacreditável. Não parecia o mesmo animal! - Sabe paulista, os bichos, a casa, e a cidade que a gente mora, é tudo igual! Precisa de trato! Limpeza, principalmente; os carrapatos, a gente arranca, nem que for um a um; os bernes, a gente mata que a ferida cicatriza! Pode doer no começo, o animal até “escoiceia”, mais depois, o bicho fica tão feliz que parece até “agradecê”. O enfeite, paulista, é o amor! No dia do leilão, vou colocar um laço bem grande, de fita vermelha, no pescoço dessa “nuvilha!”. Na viagem de volta, em um daqueles “ retões” da estrada, que parecem não ter fim, abaixei o volume do rádio e fiquei pensando: quantas lições àquela gente simples, daquele fim de mundo empoeirado, tem pra ensinar! Muitas lições. É... se pudesse, levava “gentes sabidas” deste mundo sem poeira, para aquele mundo empoeirado, só para (como eu) ir aprender. Coisas simples que fosse. Quem sabe, pelo menos, à parte do banho e dos carrapatos! Depois, se ficassem bravos... largava. Como diria o seo Vicente, deixava escoicear.

Ubatuba, 14/02/2001

Ronaldo Dias

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