|
A Baleia Kamikaze
O assunto da semana começou na última sexta feira, em frente
à Praia Grande. Aquele volume enorme, quase uma ilhota,
flutuava no horizonte. O que seria? Para pescadores,
conhecedores do assunto, não tinha erro: Era uma baleia.
E não era pequena. Distante, em território neutro, parecia
avisar sua chegada. Era uma verdadeira atração. Não demorou
nadinha para que os quiosques armassem mais e mais mesas e, os
ambulantes aparecessem com seus carrinhos, os mais variados.
Clientes. Muitos! Forraram os lugares disponíveis, para que de
camarote, pudessem assistir a chegada triunfal da Jubarte. Ela,
que há muito rondava nossa paisagem. Fila dos dois lados da
pista, a área de estacionamento da praia garantiam até mesmo
um pequeno reajuste no preço das cerveja e dos cachorros –
quente.
Multidão. Só faltou mesmo, aquele carro de som (que anda pela
cidade) divulgar alto (como sempre) e de bom som (nem sempre) o
que poderia (pelos padrões conhecidos) ser chamado de mais um
evento de Ubatuba. A diferença, é que não seria nem no
Aeroporto, muito menos na Coitada da avenida Iperoyg. Se fosse
na Avenida, os Mendigos, que tomaram conta dela, teriam de ser
ouvidos para ver se eles concordariam na realização de tal
evento. Se esse EVENTO, não iria atrapalhar suas “atividades
profissionais”.
O patrocinador do evento? A própria Jubarte. Grande atração.
Comentários de toda ordem. O que teria acontecido? O macho
partiu pra Antártida com uma baleia mais jovem? Estava grávida
e o pai Baleia não sabia? Não. “Foram as correntes
favorecidas pelos ventos” alísios. “Estava ferida de
arpão, por um caçador de baleias”. Estes, e outros
comentários “rolavam” entre umas e outras cervejas. Um mais
alterado, pelo número de cervejas ingeridas, gritou: “Até
que enfim, alguma atração nessa praia!” O turista acidental,
percebendo que poderia distrair as crianças, hospedou-se na
pousada mais próxima.
O ônibus de uma excursão lotou o prédinho de aluguel, depois
de rápida negociação entre o organizador e o zelador, que
mostrava: Olha lá, ela esta chegando! Calmamente, ao sabor da
corrente, lá vinha ela! Apressados, os vendedores repuseram
estoques e aumentaram os pedidos. Afinal, o fim de semana
prometia. A “boca pequena” foi discutido até a
possibilidade de embalsamarem a dita, e ratear o custo entre os
beneficiados. A condição, é que ficasse ali. Para sempre! “Que
destino melhor, não é mesmo?”. Chegou! Nada mais nada menos
do que 20 toneladas de peso morto, foi se encaixando, como numa
cama, nas areias fofas da praia. Foi o auge!
No dia seguinte, a atração continuava, porem o odor leve que
exalava, foi pouco a pouco afastando os “consumidores”! As
fichas todas, de todos, começaram a cair, como numa destas
maquininhas proibidas, instaladas em todos os botecos da cidade!
O fulano, que tinha proposto embalsamar o cetáceo perguntou:
“E AGORA JOSÉ?”
Empilharam as cadeiras e os carrinhos de lanche, desapareceram.
A falta de preparo oficial para o assunto (baleia) pode ser
medida, pela mesma falta de preparo para outros assuntos.
Inicialmente, os prováveis responsáveis, em reunião
plenária, buscavam apenas um responsável. Quem seria? Com um
pepino de 20 toneladas, digo uma baleia, atolada na areia... O
que mais se ouvia na tal reunião era: EU??? Eu não!!!
Nesse lero lero, perdeu-se mais e mais tempo. O estado de
decomposição do bicho avançava a cada minuto! Não devem ter
concluído de quem era a responsabilidade. Na praia surgiram
Retro escavadeiras, W20, caminhões, carretas, guinchos, e até
mesmo um rebocador. Cavouca, tenta, levanta, puxa, arrasta. Um
montão de palpites. Nada. Para qualquer atitude, coerente, já
era tarde! Muito Tarde! É..., Se ela tivesse FLUTUANDO... Não
é? ZÉ Mané! Sabe, essa Jubarte estava, na verdade, em
excursão pela nossa paisagem. Percorreu da Tabatinga ao
Camburí! Indignada, não acreditou no que viu. No que estamos
transformando as nossas praias. Não poderia viver com essas
lembranças. Era melhor o suicídio? Não, deve ter pensado ela,
melhor um ataque! De surpresa. Assim, escolheu uma praia. Um
alvo bem dimensionado às suas pretensões. Era ali. Convencida
de sua contribuição à nossa inconsciência, atirou-se. Bem no
meio da Praia Grande. Grande lição de BICHO!
Só, na terça, bem à noitinha, fora do horário de trabalho
dos mais altos técnicos da Vigilância Sanitária, (aqueles que
vistoriam restaurantes, e bares exigindo telinhas antimoscas,
ali, lá e acolá) enterraram (ali mesmo) em cova rasa, nada
menos do que 20 toneladas de matéria orgânica em estado
avançado de Putrefação. Varreram a baleia, com todos os
problemas, COAMBIENTAIS, para debaixo do tapete da praia.
Inteirinha. Sem fazer testes de infiltração. Imaginem o que
dirão (se não se calarem) e quais atitudes tomarão (se não
inertes) os órgãos de Controle Ambiental?
Quanto ao público, “eles, não sabem o que fazem”.
Voltarão. Já, no próximo final de semana, estarão dançando,
a dança da garrafa, bem em cima deste enorme cadáver. Espero,
que o espírito da jubarte, se contenha e não lance sobre nós
qualquer outra maldição. Afinal, já temos a de Cunhambebe.
Ubatuba, 30/11/2000
Ronaldo Dias
|