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Ronaldo Dias

A Baleia Kamikaze

O assunto da semana começou na última sexta feira, em frente à Praia Grande. Aquele volume enorme, quase uma ilhota, flutuava no horizonte. O que seria? Para pescadores, conhecedores do assunto, não tinha erro: Era uma baleia.

E não era pequena. Distante, em território neutro, parecia avisar sua chegada. Era uma verdadeira atração. Não demorou nadinha para que os quiosques armassem mais e mais mesas e, os ambulantes aparecessem com seus carrinhos, os mais variados.

Clientes. Muitos! Forraram os lugares disponíveis, para que de camarote, pudessem assistir a chegada triunfal da Jubarte. Ela, que há muito rondava nossa paisagem. Fila dos dois lados da pista, a área de estacionamento da praia garantiam até mesmo um pequeno reajuste no preço das cerveja e dos cachorros – quente.

Multidão. Só faltou mesmo, aquele carro de som (que anda pela cidade) divulgar alto (como sempre) e de bom som (nem sempre) o que poderia (pelos padrões conhecidos) ser chamado de mais um evento de Ubatuba. A diferença, é que não seria nem no Aeroporto, muito menos na Coitada da avenida Iperoyg. Se fosse na Avenida, os Mendigos, que tomaram conta dela, teriam de ser ouvidos para ver se eles concordariam na realização de tal evento. Se esse EVENTO, não iria atrapalhar suas “atividades profissionais”.
O patrocinador do evento? A própria Jubarte. Grande atração. Comentários de toda ordem. O que teria acontecido? O macho partiu pra Antártida com uma baleia mais jovem? Estava grávida e o pai Baleia não sabia? Não. “Foram as correntes favorecidas pelos ventos” alísios. “Estava ferida de arpão, por um caçador de baleias”. Estes, e outros comentários “rolavam” entre umas e outras cervejas. Um mais alterado, pelo número de cervejas ingeridas, gritou: “Até que enfim, alguma atração nessa praia!” O turista acidental, percebendo que poderia distrair as crianças, hospedou-se na pousada mais próxima.

O ônibus de uma excursão lotou o prédinho de aluguel, depois de rápida negociação entre o organizador e o zelador, que mostrava: Olha lá, ela esta chegando! Calmamente, ao sabor da corrente, lá vinha ela! Apressados, os vendedores repuseram estoques e aumentaram os pedidos. Afinal, o fim de semana prometia. A “boca pequena” foi discutido até a possibilidade de embalsamarem a dita, e ratear o custo entre os beneficiados. A condição, é que ficasse ali. Para sempre! “Que destino melhor, não é mesmo?”. Chegou! Nada mais nada menos do que 20 toneladas de peso morto, foi se encaixando, como numa cama, nas areias fofas da praia. Foi o auge!

No dia seguinte, a atração continuava, porem o odor leve que exalava, foi pouco a pouco afastando os “consumidores”! As fichas todas, de todos, começaram a cair, como numa destas maquininhas proibidas, instaladas em todos os botecos da cidade! O fulano, que tinha proposto embalsamar o cetáceo perguntou: “E AGORA JOSÉ?”

Empilharam as cadeiras e os carrinhos de lanche, desapareceram. A falta de preparo oficial para o assunto (baleia) pode ser medida, pela mesma falta de preparo para outros assuntos. Inicialmente, os prováveis responsáveis, em reunião plenária, buscavam apenas um responsável. Quem seria? Com um pepino de 20 toneladas, digo uma baleia, atolada na areia... O que mais se ouvia na tal reunião era: EU??? Eu não!!!

Nesse lero lero, perdeu-se mais e mais tempo. O estado de decomposição do bicho avançava a cada minuto! Não devem ter concluído de quem era a responsabilidade. Na praia surgiram Retro escavadeiras, W20, caminhões, carretas, guinchos, e até mesmo um rebocador. Cavouca, tenta, levanta, puxa, arrasta. Um montão de palpites. Nada. Para qualquer atitude, coerente, já era tarde! Muito Tarde! É..., Se ela tivesse FLUTUANDO... Não é? ZÉ Mané! Sabe, essa Jubarte estava, na verdade, em excursão pela nossa paisagem. Percorreu da Tabatinga ao Camburí! Indignada, não acreditou no que viu. No que estamos transformando as nossas praias. Não poderia viver com essas lembranças. Era melhor o suicídio? Não, deve ter pensado ela, melhor um ataque! De surpresa. Assim, escolheu uma praia. Um alvo bem dimensionado às suas pretensões. Era ali. Convencida de sua contribuição à nossa inconsciência, atirou-se. Bem no meio da Praia Grande. Grande lição de BICHO!

Só, na terça, bem à noitinha, fora do horário de trabalho dos mais altos técnicos da Vigilância Sanitária, (aqueles que vistoriam restaurantes, e bares exigindo telinhas antimoscas, ali, lá e acolá) enterraram (ali mesmo) em cova rasa, nada menos do que 20 toneladas de matéria orgânica em estado avançado de Putrefação. Varreram a baleia, com todos os problemas, COAMBIENTAIS, para debaixo do tapete da praia. Inteirinha. Sem fazer testes de infiltração. Imaginem o que dirão (se não se calarem) e quais atitudes tomarão (se não inertes) os órgãos de Controle Ambiental?

Quanto ao público, “eles, não sabem o que fazem”. Voltarão. Já, no próximo final de semana, estarão dançando, a dança da garrafa, bem em cima deste enorme cadáver. Espero, que o espírito da jubarte, se contenha e não lance sobre nós qualquer outra maldição. Afinal, já temos a de Cunhambebe.

Ubatuba, 30/11/2000

Ronaldo Dias

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