Artigos Anteriores

Ronaldo Dias

Chevrolet 47

E lá se vão quase 40 anos. A primeira vez que subi em um veículo automotivo foi com o meu saudoso e querido avô. Motorista profissional, exibia com orgulho sua carteira verde e grande, bem como a sua filiação ao IAPETC, o que, segundo ele, lhe garantia uma boa aposentadoria. Faleceu, como tantos outros, enganado. Orgulhava-se muito da sua profissão, e gabava-se de nunca Ter se envolvido em qualquer tipo de acidente de trânsito.

Seu caminhão, um Chevrolet azul, talvez 1947, polido e limpo, que muitas vezes era a condução coletiva nas festas de família. Serio, magro, bem alto, olhos claros, careca, sempre vestia camisa branca de mangas curtas e calça bege. Charmoso, o velho, quando passava pela Rua Bresser, arrancava longos suspiros e olhares insinuantes da Dona Nina, para ciúmes da vó Clementina. Este era o Chico Dias.

Eu não era, pelo menos à vista dos familiares, o neto preferido, pois tinha o Goro, meu primo, que mais velho, merecia este cobiçado lugar. Mas, meu avô, longe dos olhares da reprovação, de vez em quando colocava-me no colo para experimentar aquela máquina maravilhosa, que nos obedecia, de acordo com a virada do volante. À direita e à esquerda. Ah!, tinha pedais , mas eu só conseguia ver a ponta dos pés do velho "funcionar".

Pareciam os da Tia Mafalda no piano, quando desafinada, tocava nas festas de casamento e aniversários. Criterioso, vovô foi me ensinando a dirigir "de ouvido". Pelo "barulho do motor". Primeira, segunda, terceira. Reduzir na aproximação do cruzamento. Pisar no breque junto coma embreagem. Pisca-pisca para à direita, acompanha a mão por cima da cabine. Para a esquerda, apenas a mão para fora. Cuidado em todos tipos de cruzamento. Não acredito no sinal verde, procure criar a percepção. Na dúvida, pare.

Eram tantas as informações, mas aos poucos fui assimilando, treinando a custa das rodinhas do meu carrinhos nos montes de areia. Quando vinha em casa, não entrava sem assobiar, e eu, sem mais delongas, ia correndo dizer: Vô, é assim, e com todos os barulhos que pudesse repetir os lábios, imitava o som dos motores de dois tempos, do antigo DKV. Penso que o velho aumentara sua afeição por este neto. Escondido dos outros, principalmente do Goro, dizia: "...é meu neto, você tem jeito pra coisa.

Assim passaram-se os anos, e eu consegui tirar minha carta de motorista. Correndo fui comemorar nos braços do velho, que fez questão de me acompanhar. Pude sentir lágrimas de alegria em seus olhos. Ele devia estar sentindo muito daquele fato. Sentou-se ao meu lado no carro e disse: "toca em frente meu neto. O carro era tão moderno, muito mais sofisticado que seu velho caminhão. "Muitos botões", dizia ele. Mesmo assim me acompanhava em cada movimento e gostava de observar o tempo de troca das marchas. "Assim não desgasta o motor".

Ele era metódico quanto ao comportamento do interior dos veículos da família e de qualquer outro, até mesmo nos táxis. "Não falem e nem chamem o motorista; não tire a atenção dele", asseverava. Certa vez, quando ele, pela idade, já não dirigia, passei por sua casa e o convidei para dar uma volta no meu carro novo. Orgulhoso e apressado, só pediu um tempo para pegar a galocha e o guarda-chuva, companheiros inseparáveis; pois sempre, segundo sua previsões, iria chover. E lá fomos nós, naquele domingo ensolarado, quente, com o céu azul sem nenhuma nuvem. Pediu que eu o levasse, se possível, até o Brás. Rua após rua, no seu silêncio, colecionava lembranças... Quantas seriam?

Na volta, de propósito, vim pela Móoca. Fingindo estar perdido, passei bem em frente à casa da D. Nina. Ele me olhou, e sorriu com um ar maroto, quase agradecido. Não trocamos qualquer palavra à respeito. Estava selada nossa amizade. Aproveitou o fim do trajeto para contar sua mais repetitivas estórias das inúmeras viagens, por estrada de terra, entre sua cidade natal Cerquilho e a Capital. Também não foram poucas as piadas "de português".

De repente, pediu para parar. Queria urinar. Paramos no boteco do Nino, e aproveitamos o final da tarde para tomar cerveja. Ali deveria ser seu reduto. Muitos amigos. Fez questão de me apresentar um por um. Na saída gritou: "Oh Nino! Este aqui é o meu neto preferido. Nós dois estamos dando umas voltas por aí." Rindo e felizes fomos embora. Antes de chegar na avenida, fez questão de corrigir alguns dos meus "defeitos" ao volante, e dar conselhos úteis num tom didático: "toda perícia é pouca quando temos que tomar cuidado com os outros. Dirigir carece atenção redobrada. O veículo mal conduzido, torna-se uma arma. Não entregue a direção a quem não sabe dirigir; pode ser um desastre. Quando não conhecer a estrada, vá com cuidado, pois o perigo ronda a cada curva. Olha, não confie muito no seu carro novo, hoje tem muita gente na rua. Mal educados, não respeitam a sinalização!. Motoristas e carros tem de montão, haja ruas! Dirigir não é só virar pra direita e esquerda, acelerador, breque e desembraio; dirigir é saber conduzir. Não basta ter carta..." Só parava de repetir sua frases depois do: "até logo vô, um beijo na nona..."

Hoje, nas minha orações, lembro-me dele e agradeço. Obrigado vô, por tudo viu?!?
Ele se foi há muitos anos, mais deixou uma enorme herança, que só descobri com o tempo. Entendi outros recados nas suas lições de volante. Eram também lições de vida. Estou ensinando-as aos meus filhos, e continuo, como sempre, treinando. Vovô, se puder sentir, aqui vai um abraço saudoso e bem apertado do seu neto preferido. Qualquer a dia, nos encontraremos num cruzamento qualquer. Me desculpe se buzinar pra chamar sua atenção.

Ah! Eu já ia me esquecendo; outro a dia, passando pela Dutra, comentei com a bisneta: "Tilly, já não se dirige mais como antigamente. O Junior me olhou, e riu.

Ubatuba, 12/10/2000

Ronaldo Dias

Artigos Anteriores

Caraguatatuba Ilhabela São Sebastião Ubatuba
Conheça as cidades do Litoral Norte:
Caraguatatuba Ilhabela São Sebastião Ubatuba
Home Litoral Virtual - Home Page
O mais completo site do Litoral Norte Paulista na Internet

info@litoralvirtual.com.br
©1995/2010 Emilio Campi - Studio Maranduba - Direitos Reservados
Proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site sem a expressa autorização do autor

Sites do grupo: Litoral Virtual - Jornal Maranduba - PanoTour - Caraguá - Maranduba - Maré Legal - Truckmodelismo Brasil - ECampi