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Esqueletos de Golfinhos
A temporada vai passando. Só a chuva que não. Como esperado veio um
montão de gente. Muita gente que a chuva foi e continua levando. O que
pude notar é que o público mudou. Não sei se estou ficando velho e
com a idade mais exigente (e mal humorado segundo alguns) a mudança não
me agradou.
Mas, dizem que tem público pra tudo... Contra vontade, tive de
atravessar a Praia Grande na madrugada do dia primeiro em direção a
Santa Casa. O cenário grotesco da primeira justificava as cenas de
terror da segunda. Coisa de cinema. Para aceitar aquelas locações
como realidade foi melhor fingir estar num set do Alfred Hitcok não
sei como se escreve).
Comecei pelo final. Todas as outras observações que se pode fazer
desta temporada ficam, digamos, pequenas. As soluções do ano passado
já não servem para este ano, e assim vamos. Ou ficamos. Eu me sinto
redundante. Motivo até que me leva, de vez em quando, a pensar (para a
alegria de muitos) em parar de escrever. Ou tenho o dom da vidência?
Quem sabe então, abra um escritório para fazer previsões e adivinhações.
Não! Não sei se fizer uma clientela assídua e começar a entrar uma
graninha se não vão aparecer um montão de concorrentes
instalando-se, a toque de caixa, bem do meu lado (como nos dos
restaurantes, farmácias, sorveterias e lojas) para dividir (quando o
inverno chegar) minhas misérias.
Melhor não inventar e ficar quietinho, lamentando o engano de muitos,
iludidos, que no afã da temporada, logo, logo, (também como sempre)
estarão colocando as violas e as esperanças nos sacos. Nossa cidade
sofre com a temporada. Nossa natureza sangra. A multidão nos tem
iludido também. Muitos dos que nos visitam, não respeitam nossa
cidade, nossas casas, nossas praias, nossas cachoeiras, nossa mata,
nossas trilhas, nosso mar. O homem faz o seu meio ambiente. A continuar
assim, na retórica, e achando que quanto mais gente melhor, em breve
vamos ter apenas esqueletos para mostrar.
Ubatuba, 17/01/2002
Ronaldo Dias
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