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Marretagem
Nenhum setor de economia cresce tanto quanto o da marretagem. Enquanto as
multinacionais congelam seus investimentos e abandonam planos de expansão, os
camelôs não param de abrir novos pontos de venda.
Trata-se de um negócio milionário – de outra forma os camelôs não teriam
como se instalar em bairros chiques como Higienópolis, onde o metro quadrado é
inviável para comerciantes menos poderosos.
Que franquia, que nada: agora que os camelôs chegaram à calçada dos bairros
nobres, a classe média alta vai perceber que o melhor investimento para o futuro
de seus filhos está no comércio ambulante.
Pense bem. Camelô não tem problema com cheques sem fundo. Camelô não precisa
pagar comissão para cartão de crédito. Camelô trabalha com as únicas moedas
estáveis do continente sul-americano: o passe e o tíquete. (Se em 1997 você
tivesse convertido todas as suas economias em passe e em tíquete, em vez de
aplicar em ações de empresas de tecnologia, hoje você estaria com a vida
feita, e não nessa pindaíba.)
É o melhor negócio do Brasil, no momento. Você não vê nenhuma manchete
dizendo CAMELÔS REGISTRAM QUEDA DE VENDAS PELO SEGUNDO MÊS CONSECUTIVO, vê?
Magina. Impensável.
Você já viu camelô fechando banca? Camelô liquidando tudo para entrega do
ponto? Camelô dando férias coletivas? Camelô reduzindo horário de
funcionamento por causa do racionamento de energia?
Claro que existe um preço a pagar por tamanha exuberância econômica.
A calçada da sua rua, que até há pouco tempo só tinha buraco e cocô de
cachorro, agora tem uma pequena sucursal de Ciudad Del Este funcionando 24 horas.
Você quer sua calçada de volta? Não adianta se revoltar. Não adianta
protestar. Não adianta recorrer à violência. O capitalismo é sempre mais
forte: não há como deter o progresso e a livre iniciativa.
A solução é a mesma que a revista britânica conservadora The Economist
defende para o tráfico de drogas: a legalização e a regulamentação.
Não, não é preciso criar nenhuma lei diferenciada para os camelôs.
Basta aplicar a esse dinâmico setor da economia o mesmo conjunto de
regulamentos, sanções pecuniárias e perseguições puras e simples a que são
submetidos os não-camelôs como você e eu.
Por exemplo:
ZONA AZUL
Para estacionar junto à calçada você e eu não precisamos comprar e preencher
folhas de Zona Azul? Pois então. Basta fazer o mesmo com os camelôs.
Em vez de ser fiscalizados pela fiscalização molóide da Prefeitura, eles vão
ser fiscalizados pelas implacáveis e incorruptíveis garotas da Zona Azul. Com
uma vantagem: como o tempo máximo permitido de permanência na Zona sul é de
duas horas, os camelôs precisariam levantar acampamento a cada 120 minutos –
no mínimo haveria um rodízio de ambulantes na sua porta. (Aliás, o rodízio
compulsório também é outra idéia que pode ser estendida à marretagem.)
LOMBADAS ELETRÔNICAS
Por que só nós podemos ser fotografados e multados quando pisamos demais no
acelerador bem na frente do radar? Ora, se os ambulantes pudessem ser
fotografados e multados toda vez que se distraíssem e armassem suas bancas em
ruas não-permitidas, certamente essa farra ia acabar.
IPTU REGRESSIVO
Eis aqui uma grande solução para que a Prefeitura se dedique à erradicação
desse problema. Funciona assim: quanto mais ambulantes se instalam na frente do
seu prédio, menos IPTU você paga. Dessa maneira, pela primeira vez os papéis
se inverteriam: o contribuinte ia querer ter camelôs na calçada de casa, e a
Prefeitura ia lutar para tirar os ambulantes de lá.
CHAMA O CONTRU!
O que é bom para a Gabriel Monteiro da Silva é bom para a calçada da Praça
Buenos Aires. Para continuar aberto, o camelô tem que provar que aquilo ali não
é banca – mas apenas um showroom.
Comentários econômicos, de autoria desconhecida, que circula pela web
Ubatuba, 29/04/2002
Ronaldo Dias
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