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O Presente do Passado
A idade vai chegando e parece que a memória, pouco a pouco e
automaticamente, passa a guardar apenas a síntese das nossas
vidas. Será, além do desgaste natural, uma “economia” de
neurônios? Como em um álbum de fotografias, a memória passa a
resgatar de quando em quando, somente aqueles momentos marcantes
que vivemos. Bons e ruins.
O interessante é que os ruins, o tempo se incumbiu de
ameniza-los. Perderam muito daquela ruindade. Esta semana quando
procurava um daqueles documentos tão bem guardados (que quando
precisamos não achamos) me deparei com o meu passado. Entre
tantos papéis esquecidos encontrei uma foto do meu avô
Alfredo, pai da minha mãe. A foto era da época que meus pais
viajavam muito (meu pai era trapezista de circo) e eu, no inicio
da idade escolar morava na casa do vovô, junto com tios Romeu e
Sérgio e tias, Dora, Maura e Vera (com as regalias de primeiro
e único neto e sobrinho).
A memória, rapidamente me trouxe à lembrança, cenas da
época, com uma impressionante riqueza de detalhes. Da casa,
desde a trinca na coluna do portão, a pia desgastada de “granilite”
cor de vinho, que com “cândida” minha avó insistia em
deixar branca, a escada barulhenta de madeira, a sala com a mesa
de costura do meu avô alfaiate, os quartos e até a área da
frente onde pintei as paredes creme com lápis de cor e o tio
Sérgio com os amigos, jogava futebol de botões. Tudo muito
claro. Da comida simples, sinto o aroma apetitoso do bife frito
e do feijão. As verduras frescas da horta eram apanhadas na
hora, pois não havia geladeira. Lembro-me do arroz branco com
ovo (das galinhas do quintal) servido ao tio Romeu que tinha
nesta “iguaria” seu prato predileto, e também do volumoso
prato fundo (trasbordante) de arroz e feijão do tio Sérgio.
O sanduíche que eu levava (de lanche) para a escola era
recheado de tomate sem sementes, cortado bem fininho, temperado
com azeite, sal e azeitonas descascadas. No quintal tinha as
arvores e bananeiras disputavam espaço ao sol com os pés de
abóboras e o milharal. Na época própria o milharal em cima da
tampa redonda da enorme fossa, se transformava em espigas.
Espigas na cozinha, em curau, pamonhas, bolo de bagaço, milho
assado e cozido. Ambos devorados com manteiga de latinha. Tanta
espiga produzia o milharal que ainda enchia várias vezes as
sacolas de feira das vizinhas e das visitas interesseiras.
Eu estudava em um colégio de padres Salesianos. Na igreja da
paróquia (Chácara), meu tio Sérgio era coroinha (ajudava a
Missa, ainda em Latim) e minhas tias Maura e Vera (Filhas de
Maria) cantavam no coral. Meu avô era o meu “amiguinho” das
horas solitárias, e companheiro de todas as outras. Nas tarefas
entediantes da escola, na missa aos domingos (de presença
carimbada na caderneta da escola) nos passeios, até no bingo e
nas barracas de prêmios da quermesse da igreja, estava, em
quanto pode, presente. Ele, e meus tios, me chamavam de Dadinho.
Em cada ida sua a padaria da esquina (a Moravia) para comprar
seus cigarros (Macedônia) os os pãezinhos “quentinhos” era
umas balinhas ou um docinho pro Dadinho. Nas tardes frescas,
seus olhos atentos vigiavam minhas estripulias no carrinho de
três rodas pela rua esburacada e sem calçamento, surdo aos
gritos de cuidado, em coro, das minhas tias cantoras. O perdi
logo. Muito rápido! Tinha apenas sete anos.
Quantas e quantas lições, neste pouco tempo, ele me ensinou.
Quantas de suas lições e exemplos fazem parte da minha
personalidade e da minha vida! Ele foi um presente que recebi e
não tive tempo de agradecer. Partiu tão escondido e cheio de
cuidados para eu não perceber que estava indo, que conseguiu.
Junto com sua foto encontrei estavam algumas de suas cartas à
minha mãe falando do “seu” Dadinho. Era o ano de 1958.
Em cada frase das cartas que li, muitas lembranças. Em cada
lembrança, uma lágrima. Quem disse que saudade não dói e
homem não chora? Meu avô foi um presente. Um presente no meu
passado.
Ubatuba, 22/03/2001
Ronaldo Dias
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