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Ronaldo Dias

Turismo, Preservação e Comunidade

Introdução
O turismo, que se alimenta principalmente do patrimônio natural e cultural, é uma faca de dois gumes no que diz respeito à preservação. Por um lado, a vertente tradicional do turismo de massa pode ter efeitos devastadores sobre a cultura, a ecologia e a estética, como se nota em vários lugares de intensa visitação.

Por outro lado, o turismo sob formas mais calmas e alternativas, como as diferentes modalidades de turismo cultural e de natureza, é hoje visto como um catalisador do desenvolvimento sustentável, capaz de dinamizar economias locais, preservando ao mesmo tempo a cultura e o meio ambiente.

Quanto disso é verdade? Quais são as reais contribuições do turismo para a preservação? Que desafios e possibilidades se abrem para o turismo e o patrimônio neste final de milênio? Como esse difícil diálogo se traduz em ações concretas de planejamento no Brasil hoje?

Turismo e Preservação: Conflitos e Possibilidades
Durante os anos 70 começou-se a criticar o impacto negativo do turismo de massas sobre o meio ambiente, apontando-se a devastação de áreas naturais, como parques e zonas costeiras, até o comprometimento da qualidade de vida nos centros históricos das cidades, causada por congestionamento, todo tipo de poluição e danos, aumento de violência e crescimento desordenado da periferia.

Na década de 80 falou-se muito na necessidade de desenvolver formas alternativas de turismo, através de uma abordagem holística da atividade, de forma a beneficiar visitantes e visitados. O hemisfério norte investiu muito em suas cidades turísticas, na diversificação de seus atrativos, na interpretação e apresentação de seu patrimônio. O planejamento fez-se, no entanto, sem uma efetiva parceria criativa entre órgãos de preservação e turismo, sem o efetivo envolvimento da população e de suas práticas culturais, que foram, em muitos casos, excluídos e pasteurizados para o rápido consumo turístico.

O resultado pode ser visto ainda hoje quando se passeia por algumas cidades européias, por exemplo. Tem-se a impressão do déjà vu, tal a mesmice de certas paisagens urbanas, esvaziadas de conteúdo sócio-cultural, meros cenários de filme ou shopping centres ao ar livre, com decoração e mobiliário semelhante e lojas sempre iguais, a celebração do não-lugar no cenário global. O prazer da visita é comprometido, aqui e lá, por razões distintas, sendo o denominador comum a concentração de gente e barulho.

É só nesta década, especialmente após a Eco92 no Rio de Janeiro, que a questão da sustentabilidade ganhou conceitos e formas concretas, levando a novas concepções de como desenvolver o turismo, e todas as atividades correlatas, de forma sustentável. Hoje, concorda-se que o turismo sustentado deve voltar-se para harmonizar as necessidades de seus quatro componentes: a comunidade receptora, os visitantes, o meio ambiente e a própria atividade.

Se bem planejado dentro dos princípios da sustentabilidade, o turismo pode ter um impacto positivo e ser um catalisador para a restauração, preservação e revitalização de paisagens naturais e culturais, pode reforçar a cultura local e contribuir para a geração de empregos e renda das comunidades.

Planejamento Participativo e Parcerias para Ação
Além de levar em consideração a preservação da natureza, da cultura e dos processos produtivos locais, o planejamento sustentável deve adotar uma abordagem que trabalhe a mentalidade da população nativa e os hábitos das organizações turísticas locais. Ou seja, levar em conta os medos, desejos e necessidades da população local tornou-se essencial no planejamento turístico hoje.

Resumindo, o planejamento do turismo com a comunidade é visto como necessário ao desenvolvimento sustentável por duas razões principais:

1. Se o desenvolvimento do turismo não for compatível com desejos e objetivos da comunidade, ou for dominado por interesses econômicos exclusivamente externos, conflitos e tensões podem resultar no declínio do turismo.

2. Residentes têm o direito de serem envolvidos no desenvolvimento de uma indústria que sempre traz custos e benefícios para sua comunidade.

Planejar com, ao invés de para (a comunidade), não é fácil, uma vez que:

1. A dependência de recursos externos, públicos ou privados, impede o controle local.

2. E os objetivos econômicos individuais de curto prazo tendem a predominar sobre os objetivos comunitários de longo prazo.

3. Há falta de informação e treinamento

4. Falta visão e interesse e compromisso daqueles não envolvidos diretamente com o turismo

Assim, o envolvimento da comunidade é vital para o desenvolvimento sustentado do turismo, desde que faça parte de uma estratégia mais ampla e integrada, o que requer sólidas parceiras entre organizações públicas e privadas.

Interpretação do Patrimônio: comunicando com o turista
Num contexto de rápido crescimento do turismo cultural e de natureza em suas várias formas, a interpretação e apresentação do patrimônio natural e cultural tornaram-se cruciais para despertar atitudes preservacionistas, tanto das comunidades receptoras e dos visitantes, quanto dos empreendedores turísticos.

Em julho de 1999, realizou-se na Universidade de Bournemouth, Inglaterra, a conferência internacional Apresentação e Interpretação do Patrimônio na Europa, destinado a avaliar a prática européia, bem como as tendências e perspectivas da interpretação para o próximo milênio.

As apresentações técnicas e acadêmicas revelaram uma preocupação comum: a de que, neste final de milênio, a humanidade não está realmente ganhando a luta pela preservação, por maior que tenha sido até aqui o esforço em tombar conjuntos históricos e restaurá-los, em delimitar áreas naturais de conservação e proteção e em estabelecer parâmetros sustentáveis para o planejamento turístico. Vale dizer, os padrões de desenvolvimento e de comportamento têm sido mais destrutivos que preservacionistas.

Por outro lado, várias comunicações revelaram também uma certeza comum: a de que a única chance de reverter esse quadro que temos hoje é de trazer a preservação para o coração e a mente das pessoas, lidar com suas emoções de forma a desenvolver nelas afeição pelo ambiente que as circunda, pelo espaço público, pela natureza, pela vida silvestre, por sítios históricos.

A construção de atrações culturais e naturais é crucial para o desenvolvimento do turismo sustentado e necessário para reconciliar os interesses da preservação e do desenvolvimento. Uma boa atração, por sua vez, é desenvolvida em torno de um conceito construído a partir da interpretação das histórias, lendas e segredos do lugar. Duas perguntas são essenciais no desenvolvimento de uma atração natural ou cultural: qual é o espírito do lugar? E como transmiti-lo aos visitantes?

As respostas a essas perguntas estão em grande parte com a comunidade, que precisa ser estimulada a buscá-las na memória coletiva, em sua história oral e documentada. Uma boa tarefa conjunta para os órgãos de preservação e de turismo: envolver, desde o início, os moradores no levantamento do inventário cultural e turístico de suas localidade, e dar-lhes um canal de expressão para os vários sentidos que atribuem ao seu patrimônio.

As paisagens urbanas e naturais são multivocais, isto é, um mesmo objeto, lugar ou fenômeno tem, geralmente, vários sentidos e identidades, de acordo com quem os atribui ao longo do tempo. São as várias vozes da comunidade, as várias narrativas, tempos e motivos diferentes - os econômicos, os estéticos e os políticos.

Por outro lado, sabe-se que a pessoa média está mais interessada em pessoas e nos usos que fazem de lugares e coisas, que em arquitetura, geologia ou cerâmica. Assim, dar um canal de expressão para as várias vozes da comunidade interpretarem seu patrimônio enriquece a interpretação e a experiência vivencial do visitante, ao mesmo tempo em que valoriza o lugar. Mais que informação, interpretar é revelar significados, é provocar emoções, é estimular a curiosidade, é entreter e inspirar novas atitudes no visitante, é prover uma experiência inesquecível com qualidade.

Para atingir seus objetivos, a interpretação utiliza várias artes da comunicação humana - teatro, literatura, poesia, fotografia, desenho, escultura, arquitetura - sem se confundir, no entanto com os meios de comunicação ou equipamentos que lhe servem de veículos para expressar mensagens: placas, painéis, folders, mapas, guias, centros, museus, etc. Nada substitui, no entanto, a interpretação ao vivo, quando realizada com guias sensíveis ao ambiente e às necessidades dos visitantes.

Interpretar com a comunidade exige uma estratégia de comunicação social efetiva e permanente dos órgãos de preservação com os herdeiros do rico e variado patrimônio natural e cultural do país.

Tanto o IPHAN quanto o Ibama e seus braços estaduais não têm esta tradição (por várias razões que não cabem aqui comentar), concentrando seus esforços, geralmente, em ações de normatização e fiscalização, com raras exceções. Mesmo os monumentos, conjuntos e áreas mais visitados, raramente são devidamente interpretados e apresentados para os vários tipos de usuários.

Assim, os próprios moradores e administradores locais não se envolvem na proteção e valorização de algo que não são estimulados a valorizar e interpretar para si mesmos. Por outro lado, sem ter muito o que ver e usufruir em termos de atrações culturais e naturais bem montadas, os visitantes acabam por não entender nem valorizar as ações de preservação, muito menos por desenvolver atitudes de apreciação e proteção de ambientes naturais e culturais.

Os órgãos oficiais de turismo, por sua vez, investem quase exclusivamente na promoção de lugares como destinos turísticos, uma vez que a atividade é dominada por transporte, acomodação e operação. A tarefa de sensibilizar as administrações locais e os próprios comerciantes e empresários do setor para o planejamento e desenvolvimento do turismo sustentável é apenas uma tarefa secundária e descontinuada (o PNMT é a rara e insuficiente exceção da política deste setor).

Não há, concretamente, um programa conjunto com os órgãos de preservação para promover o desenvolvimento cultural das comunidades, reciclar suas habilidades para as novas vocações abertas pelo turismo cultural ecológico, direcionar os investimentos do setor para serviços e equipamentos adequados ao local.

Conclusão
O Desenvolvimento sustentado do turismo cultural e ecológico no Brasil depende de:

  • Capacidade de desenvolvimento do produto turístico integrado: atrações cultural-ecológicas ligadas por roteiros adequados, amparados por infraestrutura suficiente e equipamentos e serviços de qualidade. Vale dizer, capacidade de planejamento para ação.
  • A formação de público para as várias formas de turismo cultural e "verde", através da interpretação: sensibilização através da aprendizagem informal da comunidade e dos visitantes.
  • Parcerias para marketing integrado, através de rede de informação para o turista e marketing externo para mercados emissores.

A interpretação é, portanto, instrumento essencial na gestão do patrimônio e no desenvolvimento do turismo diversificado e sustentável porque:

  • Diversifica as atrações turísticas e de lazer de determinada localidade.
  • Provê oportunidades de aprendizagem informal no campo da educação ambiental e patrimonial.
  • Orienta os fluxos de visitação, protegendo ambientes frágeis.
  • Provê instrumental de planejamento em parceria com a comunidade.
  • Racionaliza as ações dos órgãos de patrimônio, meio ambiente, planejamento urbano e turismo.

O Caso Brasileiro: Perspectivas e tendências
O desenvolvimento do turismo cultural no país depende da capacidade dos órgãos públicos de preservação e turismo estruturarem programas conjuntos a serem implantados localmente em parceria com a comunidade latu sensu: prefeituras, moradores, comerciantes e empresários locais, escolas e associações, Ongs e igrejas.

Em sintonia com o que acontece no restante da vida do país, estamos, também aqui, a depender da capacidade de sensibilizar e mobilizar pessoas e recursos para a causa da preservação com desenvolvimento. O turismo não é apenas uma questão econômica, é uma alternativa de desenvolvimento social e cultural das localidades brasileiras. É por isso que deve estar presente nos programas conjuntos de comunicação do patrimônio com seus herdeiros, ajudando a realizar o encontro do patrimônio com a comunidade desde o inventário cultural até sua interpretação e apresentação ao público.

Até realizarmos isso, todo brasileiro continuará a sentir-se como um filho deserdado, o patrimônio será sempre do outro, do Estado brasileiro, dos acadêmicos, dos especialistas que o guardam a sete chaves. Se conseguirmos realizar essas tarefas, as perspectivas que se abrem para o turismo cultural são fantásticas, dada a riqueza da diversidade cultural do país.

Podemos pensar em vários tipos de roteiros para o turismo de interesse especial, que tem a preservação como denominador comum e que representa uma efetiva perspectiva de desenvolvimento para as localidades a médio e longo prazo: o turismo histórico, arquitetônico, artístico, gastronômico, rural, educacional, esotérico. É de se esperar que a interpretação e apresentação do patrimônio sigam a tendência internacional de países com tradição na área de turismo histórico cultural, revelada nesses últimos anos do milênio.

A autora
A Professora Stela Maris Murta é mestre em planejamento pela University of Oxford Brooks, com a tese "O Papel da Interpretação no Planejamento Urbano"; Diretora da Território Brasilis Consultoria LTDA, empresa especializada em interpretação de ambientes para o turismo; e co-autora do livro "Interpretação do Patrimônio para o Turismo Sustentado" (um Guia).

Fonte: http://www.ecoviagem.com.br/ecoestudos/stelamaris/autora.asp

Ubatuba, 08/04/2003

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